Iracema Teixeira
   Psicóloga
   CRP 05/8968
   Tel/Fax: (21) 2257-0961
   E-mail:
   iracema@iracemateixeira.com.br
   qualidadenavida@iracemateixeira.com.br

ANACRONISMO E INTOLERÂNCIA
TEXTO DO VATICANO SOBRE UNIÃO HOMOSSEXUAL TOMA DE ASSALTO CENA POLÍTICA

Mario Vargas Llosa

O que mais surpreende no documento sobre os casais homossexuais apresentado pelo Vaticano no dia 1.º de agosto - escrito pelo cardeal Joseph Ratzinger e aprovado pelo papa - não é a reafirmação da doutrina tradicional da Igreja Católica que condena o amor entre pessoas do mesmo sexo como "um comportamento desviado" que "ofusca valores fundamentais", e sim a veemência com que se exorta os parlamentares e servidores católicos a agir para impedir que sejam adotadas leis que autorizem a união homossexual ou, se elas forem aprovadas, para frear e dificultar sua aplicação. Neste caso é que parece não servir para nada aquela sábia distinção evangélica entre o que é de César e o que é de Deus: o documento toma de assalto a vida política e dá instruções inequívocas e terminantes aos católicos para que atuem em bloco, disciplinados e submissos como bons soldados da fé.

Com a mesma clareza com que fulminou o divórcio, o aborto, a eutanásia e a engenharia genética, o cardeal Ratzinger e, por trás dele, o papa Wojtyla lembram os parlamentares católicos que eles "têm o dever moral de expressar diáfana e publicamente seu desacordo e votar contra os projetos de lei" que amparem os matrimônios homossexuais e "apresentar emendas que limitem os danos" de tais leis. Ao mesmo tempo, os servidores católicos devem "reivindicar o direito à objeção de consciência para não cooperar com a promulgação e a aplicação de leis tão gravemente injustas". A condenação é ainda mais contundente no que se refere à adoção de crianças por casais homossexuais, prática "gravemente imoral" que, aproveitando a "debilidade" de um ser de poucos anos, serviria para "introduzir a criança num ambiente que não favorece seu pleno desenvolvimento humano", já que "as relações homossexuais contrastam com a lei moral natural".

Com argumentos assim, temperados com a presença sulfúrica do demônio, a Igreja mandou milhares de católicos e infiéis para a fogueira na Idade Média e contribuiu decisivamente para que, até nossos dias, a alta porcentagem de seres humanos de vocação homossexual vivesse na catacumba da vergonha e do opróbrio e fosse discriminada e ridicularizada, enquanto se impunha na sociedade e na cultura o machismo, com suas degenerantes conseqüências: a postergação e humilhação sistemáticas da mulher, a entronização da viril brutalidade como valor supremo e as piores distorções e repressões da vida sexual em nome de uma suposta "normalidade" representada pelo heterossexualismo. Parece incrível que, depois de Freud e de tudo o que a ciência foi revelando ao mundo em matéria de sexualidade no último século, a Igreja Católica - quase na mesma hora em que a Igreja Anglicana elegeu o primeiro bispo abertamente gay de sua história - aferre-se a uma doutrina homofóbica tão anacrônica quanto a exposta nas 12 páginas redigidas pelo cardeal Joseph Ratzinger.

A julgar por algumas reações e pesquisas que leio na imprensa italiana - escrevo estas linhas na costa da Sicília, onde não chegam outros diários europeus -, nem todo o rebanho católico acatou com a devida docilidade o ucasse vaticano. O senador Edward Kennedy, em Washington, declarou que "a Igreja Católica deve ocupar-se de religião e não de tomadas de posição políticas" e reafirmou seu apoio às uniões de casais gays. Assim fez também o primeiro-ministro canadense, Jean Chrétien (católico), cujo país está prestes a aprovar uma lei que autoriza o matrimônio homossexual. Segundo o jornal Corriere della Sera, 51,6% dos italianos são a favor das uniões entre casais do mesmo sexo; e na Espanha, segundo uma pesquisa do diário El Mundo, a porcentagem favorável seria ainda maior: 53%. O mesmo diário italiano transcreve uma declaração contundente do dirigente democrata-cristão Pim Walenkamp, da Bélgica, um dos cinco países europeus onde foram autorizadas as uniões homossexuais (os outros são Dinamarca, Suécia, Holanda e França):

"Não daremos nem um passo para trás. O papa faria bem ocupando-se com temas importantes como aqueles que têm a ver com os países pobres do mundo, em vez de apontar com o dedo o que as pessoas fazem na intimidade do leito."

Escândalos - A filípica anti-homossexual do Vaticano é ainda mais surpreendente porque, se existe uma instituição no mundo que nos últimos anos viveu na própria carne, e do modo mais dramático, o drama do homossexualismo e as nefastas conseqüências que o ato de condená-lo e fechar-lhe todas as vias de manifestação traz aos indivíduos e ao conjunto da sociedade, é a própria Igreja Católica. Só nos Estados Unidos já chegam a centenas, talvez milhares, os casos de pedofilia, assédio sexual e homossexualismo nos colégios, seminários e centros de animação cultural e desportiva dirigidos pela Igreja Católica que levaram ao banco dos réus sacerdotes, bispos, párocos, instrutores, catequistas - escândalos que não só trouxeram à luz um deplorável pano de fundo de "sexualidade pervertida" amparada pela autoridade sacerdotal, mas também, do ponto de vista econômico, custaram à instituição eclesiástica nos Estados Unidos somas astronômicas em reparações, compensações por danos e prejuízos e acordos extrajudiciais. O caso, particularmente doloroso, do bispo de Boston serviu para ilustrar melhor que qualquer argumento racional a insensatez de se impor uma ortodoxia sexual sem levar em conta a infinita variedade de matizes da personalidade individual e a maneira tortuosa e trágica com que a natureza humana se rebela contra essas camisas-de-força, causando verdadeiros estragos em sua vizinhança e, é claro, na própria pessoa do carrasco/vítima. Com toda essa experiência vivida em seu próprio seio, seria de se esperar que a Igreja Católica se mostrasse mais cautelosa, compreensiva e tolerante no tema do homossexualismo. Mas o texto do cardeal Ratzinger mostra exatamente o oposto: o encerramento, com obstinação dogmática, numa doutrina intolerante que, na prática e nos próprios edifícios da Igreja Católica, vai fazendo água por todos os poros.

Mas talvez esse texto, pudicamente intitulado "Considerações sobre o planejado reconhecimento legal da união entre pessoas homossexuais", destine-se não tanto a conter a maré de permissividade e tolerância em matéria sexual que vai ganhando toda a cultura ocidental, e sim a pôr ordem no seio da própria Igreja Católica, onde, precisamente por causa dos contínuos escândalos de pedofilia e assédio sexual nos quais se viram envolvidos tantos sacerdotes e religiosos, foi tornado público um estado de coisas que (usando a própria retórica e a própria moral da instituição, que, nem preciso dizer, não são as minhas), o cardeal Ratzinger e o papa chamariam de "profunda desintegração moral". Se esse é o propósito, posso dizer com segurança que ele está fadado ao fracasso. Porque os escândalos sexuais recentes no seio das congregações, seminários, colégios e paróquias católicos não resultam de um enfraquecimento da autoridade eclesiástica nem da falta de disciplina interna, e sim de uma natureza humana que nem agora nem antes pôde ser artificialmente refreadasem que se causasse estragos e lacerasse a psicologia e a conduta das pessoas. A diferença entre hoje e ontem, em matéria sexual, dentro e fora da Igreja Católica, não é de comportamento. Este não pode ter variado muito, porque, embora muitos costumes e crenças tenham mudado, os impulsos, os instintos, os desejos e as fantasias que animam a vida sexual continuam sendo os mesmos. É de publicidade. Antes, os escândalos podiam ser ocultados e os pedófilos e assediadores sexuais, safar-se, como, aliás, continua ocorrendo nas sociedades fechadas e submetidas à ditadura religiosa.

Liberdade - Nas sociedades abertas isso já não é possível, pois a liberdade foi abrindo todas as portas e fazendo aquilo que antes permanecia tampado e escondido sair à plena luz e chegar aos jornais, telas de televisão e tribunais. A verdade que se faz pública, graças a isso, não diz respeito somente a uma realidade institucional, aos pequenos dramas e escândalos que têm como cenário a Igreja Católica. Diz respeito a uma verdade sobre o ser humano em geral e à identidade sexual das pessoas, uma identidade muito menos rígida e unidimensional do que ensinava a doutrina e muito menos dócil aos ensinamentos pastorais do que a Igreja alega.

Não se pode ignorar essa verdade, sob pena de ficar para trás, cada vez mais à margem da história e do mundo em que vivemos imersos, como acontece com essas veementes e ferozes diatribes escritas de quando em quando pelo cardeal Ratzinger e aprovadas pelo papa Wojtyla, ambos empenhados, contra toda razão e com admirável pertinácia numantina, em negar seu tempo e rechaçar a vida. Os milhões de homossexuais católicos do mundo não renunciarão à sua sexualidade por causa das fulminações vaticanas. Mesmo se tentarem fazê-lo, sua propensão sexual acabará por encontrar uns resquícios por meio dos quais se manifestar e adquirir direito de cidadania, às vezes com grandes traumas e aflições para o próprio sujeito e seus próximos. Não é o sexo, são a Igreja e a fé católicas as vítimas privilegiadas deste novo manifesto cavernícola.

Estado de São Paulo, 10 de agosto de 2003
http://www.estado.estadao.com.br/editorias//2003/08/10/ger018.html


GRUPOS DE ENCONTROS

Estamos promovendo uma série de grupos de encontros.
Clique aqui e saiba mais.



LEIA TAMBÉM

Leia nosso artigo "O que é Psicoterapia".